Regência Verbal e Nominal para Concursos: Os Verbos que Mais Caem
A língua portuguesa é uma das disciplinas mais determinantes em concursos públicos no Brasil. Seja em provas da Fundação Carlos Chagas (FCC), Cebraspe, Fundação Getulio Vargas (FGV) ou Vunesp, o domínio da norma-padrão é o divisor de águas entre a aprovação e a reprovação. Dentro do conteúdo programático de português, o tópico de regência verbal e nominal figura no topo dos assuntos mais cobrados e que registram o maior índice de erros por parte dos candidatos.
O grande desafio da regência reside no fato de que o português falado no dia a dia no Brasil afasta-se frequentemente da norma culta gramatical. Expressões comuns do cotidiano, como “fui no cinema” ou “assisti o jogo”, são terminantemente proibidas na redação e nas questões objetivas de concursos públicos. Compreender as relações de dependência entre termos regentes e regidos é essencial para garantir pontos preciosos na sua prova.
Neste guia completo, você aprenderá os conceitos fundamentais da regência verbal e nominal, analisará detalhadamente os verbos e nomes mais cobrados pelas bancas examinadoras e descobrirá como fugir das principais pegadinhas preparadas pelos examinadores.
1. O que é Regência Verbal e Nominal?
Na gramática normativa, a regência estuda a relação de subordinação que se estabelece entre um termo principal (chamado de termo regente ou principal) e um termo dependente (chamado de termo regido ou complementar). É a regência que determina se há necessidade de uma preposição para conectar esses dois elementos e qual preposição específica deve ser utilizada.
Regência Verbal
A regência verbal trata da relação entre o verbo (termo regente) e os seus complementos (objetos diretos, objetos indiretos ou adjuntos adverbiais). Dependendo do sentido que o verbo assume na frase, a sua transitividade pode mudar, exigindo ou não uma preposição específica.
- Verbo Transitivo Direto (VTD): exige complemento sem preposição obrigatória (Objeto Direto). Exemplo: O candidato leu o edital.
- Verbo Transitivo Indireto (VTI): exige complemento intermediado por preposição (Objeto Indireto). Exemplo: O candidato obedeceu ao edital.
- Verbo Transitivo Direto e Indireto (VTDI): exige dois complementos, um sem e outro com preposição. Exemplo: O professor entregou a prova aos alunos.
- Verbo Intransitivo (VI): não exige complemento relativo ao verbo para ter sentido completo, embora possa vir acompanhado de adjunto adverbial. Exemplo: O estudante chegou cedo.
Regência Nominal
A regência nominal estuda a relação de dependência entre um nome — que pode ser um substantivo, adjetivo ou advérbio — e o seu complemento nominal. Diferente dos verbos, os nomes regentes sempre exigem o acompanhamento de uma preposição para se ligarem aos seus complementos.
Exemplo: O candidato estava confiante na aprovação. (O adjetivo “confiante” exige a preposição “em” + “a” = “na”).
2. Os Verbos que Mais Caem em Concursos Públicos
Determinados verbos possuem múltiplos significados na língua portuguesa e, para cada significado, a gramática exige uma regência diferente. São exatamente esses verbos polissêmicos que as bancas organizadoras selecionam para testar a atenção do candidato. Abaixo, analisaremos os campeões de recorrência em provas.
2.1. Verbo Aspirar
O verbo aspirar apresenta duas regências distintas conforme o seu significado:
- Sentido de cheirar, sorver, trazer o ar para os pulmões: É Transitivo Direto (VTD), ou seja, não admite preposição.
Exemplo correto: O atleta aspirou o ar puro da montanha. - Sentido de desejar, almejar, ter como meta: É Transitivo Indireto (VTI) e exige a preposição “a”.
Exemplo correto: O concurseiro aspira ao cargo de auditor. (Ocorre crase se o termo regido for feminino: Aspira à vaga.)
Atenção para a pegadinha: Quando o verbo aspirar significa desejar (VTI), ele não admite o uso dos pronomes oblíquos “lhe” ou “lhes”. Deve-se usar a preposição “a” seguida dos pronomes “ele(s)” ou “ela(s)”. Exemplo: O cargo é excelente; todos aspiram a ele. (E não: “todos lhe aspiram”).
2.2. Verbo Assistir
Este é um dos verbos mais cobrados em concursos devido à enorme diferença entre a linguagem coloquial e a norma culta.
- Sentido de ver, presenciar, testemunhar: É Transitivo Indireto (VTI) e exige a preposição “a”.
Incorreto (comum no dia a dia): Eu assisti o jogo ontem.
Correto (padrão culto): Eu assisti ao jogo ontem. / Assisti à aula. - Sentido de prestar socorro, ajudar, dar assistência: Pode ser Transitivo Direto (VTD) ou Transitivo Indireto (VTI com a preposição “a”).
Exemplo correto: O médico assistiu o paciente. / O médico assistiu ao paciente. - Sentido de caber, pertencer, ser de direito: É Transitivo Indireto (VTI) com a preposição “a”. Admite o pronome “lhe”.
Exemplo correto: Esse direito assiste ao cidadão. / Esse direito lhe assiste. - Sentido de morar, residir: É Intransitivo (VI) e exige a preposição “em” (adjunto adverbial de lugar).
Exemplo correto: O juiz assiste em Brasília há anos.
2.3. Verbo Visar
- Sentido de mirar o alvo ou dar visto em documento: É Transitivo Direto (VTD).
Exemplo correto: O atirador visou o alvo. / O gerente visou o cheque. - Sentido de ter por objetivo, almejar: É Transitivo Indireto (VTI) e exige a preposição “a”.
Exemplo correto: As medidas visam ao bem-estar social. / O estudo visa à aprovação.
2.4. Verbos Esquecer e Lembrar
A regência destes verbos depende exclusivamente da presença ou ausência de pronomes pronominais (me, te, se, nos, vos).
- Não pronominais (sem pronome): São Transitivos Diretos (VTD). Não aceitam preposição.
Exemplo correto: Eu esqueci o nome do professor. / Ele lembrou o compromisso. - Pronominais (com pronome): São Transitivos Indiretos (VTI) e exigem a preposição “de”.
Exemplo correto: Eu me esqueci do nome do professor. / Ele se lembrou do compromisso.
Regra de ouro: Ou vão o pronome e a preposição juntos, ou não vai nenhum dos dois. Expressões como “Eu esqueci do livro” estão erradas na norma culta. O correto é “Eu esqueci o livro” ou “Eu me esqueci do livro”.
2.5. Verbo Preferir
O verbo preferir exige dois complementos: prefere-se uma coisa A outra coisa. Ele é Transitivo Direto e Indireto (VTDI).
- Exige a preposição “a” para introduzir o objeto indireto.
- É proibido utilizar termos intensificadores (como “mais”, “antes”, “muito mais”) ou a conjunção “do que”.
- Incorreto: Prefiro mais estudar do que trabalhar.
- Incorreto: Prefiro estudar do que trabalhar.
- Correto: Prefiro estudar a trabalhar. / Prefiro o estudo ao descanso.
2.6. Verbo Implicar
- Sentido de acarretar, trazer como consequência, resultar: É Transitivo Direto (VTD). Não aceita a preposição “em”.
Incorreto: A aprovação implica em muito esforço.
Correto: A aprovação implica muito esforço. - Sentido de ter antipatia, implicar com alguém: É Transitivo Indireto (VTI) com a preposição “com”.
Exemplo correto: O vizinho implicava com o barulho. - Sentido de envolver-se: É pronominal e exige a preposição “em”.
Exemplo correto: Implicou-se em negócios ilícitos.
2.7. Verbos Pagar, Perdoar e Agradecer
Estes três verbos seguem a mesma regra gramatical de regência dupla:
- Quando o complemento for uma coisa, o verbo é Transitivo Direto (sem preposição).
Exemplo correto: Paguei a conta. / Perdoei o erro. / Agradeci o presente. - Quando o complemento for uma pessoa, o verbo é Transitivo Indireto e exige a preposição “a”.
Exemplo correto: Paguei ao garçom. / Perdoei ao ofensor. / Agradeci ao professor. - Se houver ambos os complementos na mesma frase, eles serão Transitivos Diretos e Indiretos (VTDI).
Exemplo correto: Paguei a conta ao garçom.
2.8. Verbos Chegar e Ir
Na linguagem coloquial, é comum usarmos a preposição “em” com esses verbos. Porém, para fins de concursos públicos, verbos que indicam movimento exigem a preposição “a” ao indicarem destino.
- Incorreto: Cheguei em casa tarde. / Vou no cinema.
- Correto: Cheguei a casa tarde. / Vou ao cinema. / O candidato chegou ao local de prova.
3. Regência Nominal: Os Nomes Frequentes nas Provas
Enquanto a regência verbal se dedica aos verbos, a regência nominal foca nos substantivos, adjetivos e advérbios que exigem um complemento preposicionado. O conhecimento das preposições corretas é indispensável para questões de reescrita de frases e crase.
Abaixo está uma tabela detalhada com os principais nomes cobrados pelas bancas e suas respectivas preposições regentes:
| Nome (Substantivo / Adjetivo) | Preposição Exigida | Exemplo de Aplicação |
|---|---|---|
| Acessível | a | O conteúdo deve ser acessível a todos. |
| Apto | a, para | O candidato está apto a / para exercer o cargo. |
| Aversão | a, por | Tinha aversão a / por fraudes. |
| Compatível / Incompatível | com | A conduta é incompatível com o decoro. |
| Habituado | a, com | Estava habituado a / com a rotina intensa. |
| Nocivo | a | A procrastinação é nociva ao aprendizado. |
| Orgulhoso | de, com | Ficou orgulhoso de / com o resultado. |
| Preferível | a | A aprovação é preferível ao acomodamento. |
| Residente / Domiciliado | em | O autor é residente em São Paulo. |
| Simpatia | por | Nutria grande simpatia pelo projeto. |
4. Como as Bancas Examinadoras Cobram Regência
Cada banca examinadora possui um estilo próprio de abordagem do conteúdo de regência. Conhecer o perfil da organizadora do seu concurso é estratégico para direcionar a preparação.
Cebraspe (CESPE)
O Cebraspe costuma focar em questões do tipo “Certo ou Errado” que envolvem a reescrita de frases. A banca propõe a substituição de uma preposição por outra ou a alteração da estrutura sintática (por exemplo, trocar um verbo por seu sinônimo) e pergunta se a correção gramatical e o sentido original do texto são mantidos.
FGV (Fundação Getulio Vargas)
A FGV explora bastante o uso prático da norma culta em textos complexos e questões de múltipla escolha. É comum haver enunciados cobrando a identificação de deslizes de regência que passam despercebidos na leitura rápida, além de associar a regência à colocação pronominal e ao uso da crase.
FCC (Fundação Carlos Chagas)
A FCC adora questões clássicas de preenchimento de lacunas ou de substituição do complemento por pronomes oblíquos (o, a, os, as para complementos sem preposição; lhe, lhes para complementos preposicionados com a preposição “a”).
Dica de Pronomes Oblíquos:
– Verbo Transitivo Direto (VTD) → substitui por O, A, OS, AS.
– Verbo Transitivo Indireto (VTI com prep. ‘a’) → substitui por LHE, LHES.
– Exemplo: Obedeceu ao chefe → Obedeceu-lhe. (Obedecer é VTI).
– Exemplo: Respeitou o chefe → Respeitou-o. (Respeitar é VTD).
5. Dicas Práticas para Gabaritar Regência na Prova
- Associe Regência com Crase: Lembre-se de que a crase é a fusão da preposição “a” (exigida pelo termo regente) com o artigo definido “a” (aceito pelo termo regido). Se você dominar a regência, acertará automaticamente a maioria das questões de crase.
- Crie um Caderno de Erros: Sempre que errar uma questão de regência nos seus treinos, anote a frase correta e o verbo/nome regente em um caderno de revisão.
- Cuidado com o Paralelismo Sintático: Ao coordenar dois verbos que exigem preposições diferentes, não utilize um único complemento para ambos.
Incorreto: Entrei e saí da sala. (Quem entra, entra em; quem sai, sai de).
Correto: Entrei na sala e saí dela. - Resolva Questões Massivamente: A regência é fixada por meio da repetição e do contato constante com exemplos práticos. Resolva ao menos 20 questões por semana focadas na banca do seu concurso.
Conclusão
A regência verbal e nominal não precisa ser um bicho de sete cabeças no seu estudo para concursos públicos. Embora a língua portuguesa possua uma vasta quantidade de regras e exceções, as bancas examinadoras tendem a repetir os mesmos verbos e nomes ano após ano.
Dominar os casos de verbos polissêmicos como aspirar, assistir, visar, esquecer, preferir e implicar garantirá que você acerte a grande maioria das questões desse tópico. Mantenha uma rotina constante de revisões, faça resumos e pratique exaustivamente com provas anteriores. O rigor com a norma-padrão será o seu diferencial para conquistar a tão sonhada posse no cargo público.
